Ressaca

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Os dedos percorriam as palavras com agilidade. As letras grossas, quase garrafais, eram sorvidas a cada página; ela não lia com os olhos, mas com a boca. Como digerir tudo aquilo senão com a boca? Era todo um mundo que se apresentava ali a sua frente, mas numa terra tão distante. Fora dando os primeiros passos assim, começando pelo volume menor, caminhando para o segundo e, já mocinha, encerrando tal capítulo com o último. Havia uma melodia que só aquele mundo continha, como aquela das conchas da praia. Ela se lembra da sensação: o cheiro incolor de folha nova, com uma pitada de sal do mar e o perfume de sua escola. As horas passavam num brincar de pique-esconde, no pula-corda, na próxima página, um mergulho de cor. Eram florescentes, iguais aos seus lápis no estojo – laranja, rosa e verde, e cada uma pintava seu céu, cada cor correspondendo a um livro a mais lido, um mundo a mais desbravado. Ela, tão pequena, se sentia tão forte quanto a personagem principal, que também era pequena, num mundo tão de gente grande. E então veio a ressaca. Naturalmente esperada e temida, ela veio como quem não quer nada, arrastando os anos e levando consigo os lápis de cor e as páginas que coloriam o céu de sua boca. Não havia mais o porto seguro do mar, ou das paredes rabiscadas da escola. O sal comera as páginas, as letras, as palavras, as cores. Ficara a embriaguez incômoda no estômago de uma criança agora no corpo de gente grande, nem tão grande, mas preto, branco e esfomeado.

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Yellow

Luz apaga do holofote os raios brancos do espaço aberto. O primeiro acorde da guitarra ressoa em alto e bom sol: as nuvens são esparsas no céu verde de um jardim azul e 24 de outubro me atinge com a intensidade de um dia que te ataca. Há o metrô, sempre o mesmo trajeto, sons, suores, amores. Sinto fome no ponto de ônibus e um pato corre solto no lago cinza da cidade esbranquiçada com céu riscado de avião onde não há outubro e não há você.
A música palpita o músculo gordo do peito e arranha a garganta de um êxtase agudo na voz firme que dilacera. A compostura ereta de uma sanidade fingida que agora não mais precisa ser, canta. Faz estrelas no lago ensolarado, a chuva inglesa me faz homesick e junho me acorda, Brasil perde de 7 a 1, e me trago em você. As vozes ao redor percorrem o estádio sem jogo com o tesão do rancor alcançado pelo instrumento do vocalista, há cinzas de cigarro,  cinzas de cidade e me vejo pó nos meus vinte e três.
Ouço o prenunciar do amanhã no balão que estoura sem cor, o confete-fita invade o palco escuro como um sol amarelo-cinza de um coração vermelho-morto, e bateria, baixo, luzes recompõem o músculo mole. Há tensão no nadar do pato, no respirar a bexiga e nos outros que me observam observando, o trem para subitamente e subitamente me vejo você, verde, azul, guitarra. Percorrem minhas entranhas os dedos ágeis que gritam mais que garganta, fumo as cores e nem elas, nem lago, nem risco de céu me corroem tanto quanto o sábado frio de 2015.

Olh(am)ar

Olho os seus olhos me olharem
e quero olhá-los para sempre:
seus olhos, tão abertos e tão claros,
que me veem para além do que vejo,
para além do que julgo ser.
São os olhos que tanto busco
ao abrir os meus no calar da noite,
os olhos que vejo dormir sorrindo
na madrugada do seu corpo quente.
Olho os seus olhos dormirem
e mesmo em sonho eles me guiam,
iluminam o meu caminhar e o meu ser
que só são plenos com você.
Olho os seus olhos me olharem e quero olhá-los
para sempre: os olhos nos quais
mergulho, transbordo, me encontro,
os olhos nos quais te enxergo
e amo o que vejo.

A B C D

Cada letra do alfabeto
o despertar de um sentimento:
não se sabe bem o quê, se tudo
junto ou disperso. Mas há
um coração que bate,
ganha força o sangue antes velho,
amanhece abecedário e para em você;
rio. Chorar mais, pra quê?

Tarde

Relógio e muros no chão. O amarelo da guitarra na Teodoro Sampaio aflige o caos da paciência iminente da noite-manhã. Distorce o movimento o ônibus laranja e uma ruptura se desenha no chão torto da cidade sempre irregular. Não faz sentido, o céu. Que de bom há no sol? A imensidão amarela mais uma vez percorre a rua com o medo de quem foge. Ele bate carteiras no hospital próximo de doença social imposta pelos homens, desce a rua e pensa mas que merda é ter que trabalhar. Papéis coloridos se espalham no corpo dolorido de mais um dia que é cansaço e não é cor. Notas, números, nuvens, nu. Desprende da carne as seis cordas iluminadas do instrumento radiante da loja quase de esquina da rua quase bonita de tão só. O suor na testa derrete o desejo morto no peito infantil, queria saber tocar guitarra, mas é tarde no dia noturno, no céu crepuscular de mais uma alvorada sugada pela corrida. Há uma nota arroxeada na mão e o estômago dói, corrói o vazio que há por dentro, o único encoberto por ar. Talvez dê para um pão e meio suco, bate seis horas e é azul o sol do ônibus amassado pela carne magra que morria fome.

Os números de 2015

Queridos e queridas que acompanham o meu blog,
Sei que tenho estado meio ausente, mas quero aproveitar para deixar aqui o meu MUITO OBRIGADA a todos que acompanharam o meu blog nesse primeiro ano de vida dele! ❤
Fiquei muitíssimo feliz com as visitas e com os comentários de vocês, e quero dividir o relatório que a própria Word Press preparou contando um pouquinho desse primeiro ano do Todo em Cada Coisa. Foi graças a vocês que tudo isso foi possível, e a todos os que sempre me deram força para eu finalmente criar um blog. 
Muito obrigada! Nos vemos em 2016! 😉
Camila

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2015 deste blog.

Aqui está um resumo:

Um bonde de São Francisco leva 60 pessoas. Este blog foi visitado cerca de 980 vezes em 2015. Se fosse um bonde, eram precisas 16 viagens para as transportar.

Clique aqui para ver o relatório completo