Yellow

Luz apaga do holofote os raios brancos do espaço aberto. O primeiro acorde da guitarra ressoa em alto e bom sol: as nuvens são esparsas no céu verde de um jardim azul e 24 de outubro me atinge com a intensidade de um dia que te ataca. Há o metrô, sempre o mesmo trajeto, sons, suores, amores. Sinto fome no ponto de ônibus e um pato corre solto no lago cinza da cidade esbranquiçada com céu riscado de avião onde não há outubro e não há você.
A música palpita o músculo gordo do peito e arranha a garganta de um êxtase agudo na voz firme que dilacera. A compostura ereta de uma sanidade fingida que agora não mais precisa ser, canta. Faz estrelas no lago ensolarado, a chuva inglesa me faz homesick e junho me acorda, Brasil perde de 7 a 1, e me trago em você. As vozes ao redor percorrem o estádio sem jogo com o tesão do rancor alcançado pelo instrumento do vocalista, há cinzas de cigarro,  cinzas de cidade e me vejo pó nos meus vinte e três.
Ouço o prenunciar do amanhã no balão que estoura sem cor, o confete-fita invade o palco escuro como um sol amarelo-cinza de um coração vermelho-morto, e bateria, baixo, luzes recompõem o músculo mole. Há tensão no nadar do pato, no respirar a bexiga e nos outros que me observam observando, o trem para subitamente e subitamente me vejo você, verde, azul, guitarra. Percorrem minhas entranhas os dedos ágeis que gritam mais que garganta, fumo as cores e nem elas, nem lago, nem risco de céu me corroem tanto quanto o sábado frio de 2015.

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Olh(am)ar

Olho os seus olhos me olharem
e quero olhá-los para sempre:
seus olhos, tão abertos e tão claros,
que me veem para além do que vejo,
para além do que julgo ser.
São os olhos que tanto busco
ao abrir os meus no calar da noite,
os olhos que vejo dormir sorrindo
na madrugada do seu corpo quente.
Olho os seus olhos dormirem
e mesmo em sonho eles me guiam,
iluminam o meu caminhar e o meu ser
que só são plenos com você.
Olho os seus olhos me olharem e quero olhá-los
para sempre: os olhos nos quais
mergulho, transbordo, me encontro,
os olhos nos quais te enxergo
e amo o que vejo.

A B C D

Cada letra do alfabeto
o despertar de um sentimento:
não se sabe bem o quê, se tudo
junto ou disperso. Mas há
um coração que bate,
ganha força o sangue antes velho,
amanhece abecedário e para em você;
rio. Chorar mais, pra quê?

Tarde

Relógio e muros no chão. O amarelo da guitarra na Teodoro Sampaio aflige o caos da paciência iminente da noite-manhã. Distorce o movimento o ônibus laranja e uma ruptura se desenha no chão torto da cidade sempre irregular. Não faz sentido, o céu. Que de bom há no sol? A imensidão amarela mais uma vez percorre a rua com o medo de quem foge. Ele bate carteiras no hospital próximo de doença social imposta pelos homens, desce a rua e pensa mas que merda é ter que trabalhar. Papéis coloridos se espalham no corpo dolorido de mais um dia que é cansaço e não é cor. Notas, números, nuvens, nu. Desprende da carne as seis cordas iluminadas do instrumento radiante da loja quase de esquina da rua quase bonita de tão só. O suor na testa derrete o desejo morto no peito infantil, queria saber tocar guitarra, mas é tarde no dia noturno, no céu crepuscular de mais uma alvorada sugada pela corrida. Há uma nota arroxeada na mão e o estômago dói, corrói o vazio que há por dentro, o único encoberto por ar. Talvez dê para um pão e meio suco, bate seis horas e é azul o sol do ônibus amassado pela carne magra que morria fome.

Os números de 2015

Queridos e queridas que acompanham o meu blog,
Sei que tenho estado meio ausente, mas quero aproveitar para deixar aqui o meu MUITO OBRIGADA a todos que acompanharam o meu blog nesse primeiro ano de vida dele! ❤
Fiquei muitíssimo feliz com as visitas e com os comentários de vocês, e quero dividir o relatório que a própria Word Press preparou contando um pouquinho desse primeiro ano do Todo em Cada Coisa. Foi graças a vocês que tudo isso foi possível, e a todos os que sempre me deram força para eu finalmente criar um blog. 
Muito obrigada! Nos vemos em 2016! 😉
Camila

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2015 deste blog.

Aqui está um resumo:

Um bonde de São Francisco leva 60 pessoas. Este blog foi visitado cerca de 980 vezes em 2015. Se fosse um bonde, eram precisas 16 viagens para as transportar.

Clique aqui para ver o relatório completo

Mariana

– Tem comida, mãe?
–Tem, filho. Pode sentar.

Entra. Faz um carinho doce nessa tua mãe velha. A mesa tá posta com as coisas que você mais gosta – bolo de milho, queijo minas e pão de sal pra você fazer um lanche. Lembra da casa da vó Benedita? Ela sempre preparava o café mais forte da plantação pra você. Ah, meu filho, que saudade do sol daquele tempo. Você pequenino na cidade grande e empoeirada de Belo Horizonte, os prédios e a terra pintando o cenário alegre de tua infância já perdida. A Praça da Liberdade com tuas flores rosas que você adorava me dar, “pra pô no cabelo, mãe”, teus dedinhos brincando com os sorrisos da fonte d’água num calor de verão e sal.
O sol endurece. O asfalto e a parede amarela da igreja se desfazem em barro e água na cidade verde. A chuva cai grossa e pesa, o ginásio da escola cor de concreto o único lugar fixo, e Mariana não mais sorri. Não entendo de coisas difíceis, a TV dizendo palavras que não compreendo – tem barulho, tem sirene, tem corre-corre, falta água, falta luz, falta comida. Não entendo as coisas, e principalmente não entendo por que justo na quinta-feira você foi visitar nossa menina, meu filho. Há lama, muita lama sobre teu caixão também. Deixo a flor rosa, promessa de liberdade, em tuas mãos frias, resquícios de terra, as pálpebras cerradas num azul seco, pra sempre o teu céu. Mas vem tomar o café da vó comigo, filho.
Entra. Pode deitar em paz.